domingo, 12 de junho de 2011

Um bom lugar pra ler um livro...

"Sempre precisei de um pouco de atenção, acho que não sei quem sou. Só sei do que não gosto"...
Uma noite fria, Uma excelente oportunidade para ler um livro. Opto por fazer uma resenha, talvez, a resenha da minha vida, ou de um pedaço de mim. É, sou uma obra complexa Não me limito. Consigo lembrar de um Leonardo com uma bermudinha azul escuro, uma blusa branquinha... muito alva com um JECM bordado no lado direito na altura do peito. Ele encontra-se sentado num grande pátio... ao seu lado, uma merendeira avermelhada estava aberta... na garrafinha transparente, o tom amarelado do líquido, revela o suco de laranja. No potinho ao lado um sanduíche que mesmo em meu esforço de tentar lembrar, não consigo recordar do que seria. Ah, lembro também de uma pera que já estava cortadinha... Sinto o seu aroma ainda em mim. Outro Flash... Já estou na quinta série. Aula de História. Minha primeira aula de história. Lembro-me ainda o nome do professor: Antunes. Recordo estar sentado na primeira fileira, como sempre! Sentar na primeira fileira sempre fora opção minha, exceto no cursinho de pré-vestibular e na universidade. Do aroma da fruta que mencionei inicialmente... fez-se em mim um novo cheiro, convidativo, amargo... o gosto da cevada. Prefiro sempre as mais fortes, também nutro fascínio pelas destiladas... Mudanças que não conseguimos impedir. Transitam em mim também a sensação e consigo sentir novamente a coceirinha na ponta do nariz... relembro o primeiro beijo. Respiração ofegante. Começo a traçar mentalmente uma infinita gama de sensações e revejo, ainda que mentalmente, todos os lábios que os meus encontraram. Sinto meio que num passe de mágica, a respiração ofegante. Típicamente genuína dos seres que enamoram. Paro e por um momento sorrio... Ah, eu estava apaixonado! Com direito a formigamento na barriga... Levanto e vou até o guarda-roupa e pego uma caixinha e folheio alguns poemas, cartinhas. Não sei porque parei de escrevê-las, penso... num dos escritos eu vejo algo escrito e reconheço a minha caligrafia: Como é bom comprar um cartão telefônico e ligar apenas para ouvir a voz... Meu Deus! Como é pateticamente delicioso e excitante estar apaixonado... Suspiro... Uma pausa se faz em mim. Acendo um cigarro e minha mente me empurra para outro ponto... O abajur aceso... o lençol da cama totalemte desarrumado... e o corpo conheceu o sexo... Homem feito... Dou mais um trago no cigarro e balanço a cabeça em meio ao sorriso safado que brota em meus lábios... Homem feito... Eterno menino enamorado da vida. Já é madrugada. O som alto e as batidas levam o corpo do menino a extravasar a tensão do dia a dia... Mais um dose, é claro que eu to afim. A noite nunca tem fim... E o menino-homem conheceu os prazeres da noite. Senti-me vivo... O despertador toca insistentemente, espreguiço-me e esfrego os olhos na tentativa de reconhecer o ambiente que até segundos atrás era silêncio e breu. Os olhos abrem, levanto para um novo dia. Muitos foram os intrumentos de trabalho... Giz e quadro negro... Teclado... Produção, produção... Ainda ouço a voz do meu supervisor. Incrível como algumas coisas ficam marcadas em nós... pra sempre! Mais quadro negro e giz... Agora toca o telefone. Atenciosamente anoto mais uma denúncia de crime ambiental... o tempo passa... Deparo-me com prontuário de paciente... Mais planejamento de aula, aulas particulares, orientação educacional ... Mudo o foco... Novos aromas... Novas sensações... Atenção! Vejo algo sendo gratinado no forno... Novos Sonhos. Sinto novamente o cheiro da pera do início... Hoje ela está coberta por um molho a base de iogurte natural e ervas compondo uma linda e elegante salada de folhas verdes... Mais aulas a preparar... Uma dezena de panelas para... fugiu a palavra... Uma cozinha inteira para coordenar. Uma equipe para comandar. Sorrio ponderadamente e prossigo... O corte está errado, falo pausadamente e com uma expressão séria, porém amistosa. Faça-o novamente da seguinte forma e devolvo a faça para que seja feito novamente sob a minha orientação e blá, blá, blá... Prossigo observando um outro estágio... Ai! ao ver o sangue em seus dedos ele sorri... Faz parte! Curativo feito... Alma refeita. Novamente ele sorri. Um sorriso de contentamento e mentalmente ele diz ao balançar afirmativamente a cabeça, como se este ato o fizesse dar mais ênfase ao que está sendo dito em silêncio: É... sou feliz. Encolhido na poltrona de sua sala, ele larga por um momento o seu diário que estava a folhear e se promete escrever com mais frequência. Lembra que era muito feliz quando o fazia todos os dias...Ele passa as mãos em seus braços na tentativa de espantar o frio. Se pega olhando para o teto e por um momento, perde-se por um momento ao observar a extensão branca como neve até chegar ao encontro com a textura vermelho tijolo de sua parede. Novamente ele sorri... Lembrara de tudo o que vivera até o presente momento desde que colocou os pés a primeira vez em sua casa e repete-se, desta vez não em silêncio, mas num tom baixo, como se estivesse conversando com Deus, ou algum Arcanjo: Aqui será a base da minha felicidade, harmonia e equilíbrio. Estas palavras surtiu um efeito, como se ele estivesse refazendo algum voto ou pacto, como o fizera ao entrar pela primeira vez em seu imóvel. Observa agoraas molduras em sua parede e dialoga com ela, ouvindo assim as histórias que elas tem para lhe contar. Relembra muitos momentos eternizados nos porta-retratos e enfeites. Leva sua mão a boca e diz: Caqramba, quanta coisa aconteceu! Mais uma vez ele sorri. Perde-se em seus pensamentos e sua mão vai de encontro a garrafa de água Perrier, sorri ao constatar que este gosto fora adquirido de seu pai... Ele sorri... um sorriso de SAUDADE... Levanta e vai até a sua cozinha... Para... Pensa um pouco e resolve acender o forno... Pega o refratário com a massa fresca que fizera para sua alimentação. Fecha os olhos e por um momento puxa de sua memória gustativa o paladar do molho cheedar que fizera para a massa. Passa delicadamente sua lingua pelos lábios como se estivesse alimentando-se desta sensação. Após colocar o refratário no forno, separa o pratro e o talher e coloca sobre a mesa e volta para a poltrona. Tudo feito no mais absoluto silêncio. Este momento era sublime e apenas vivênciado por ele e observado por Deus... Depois de alguns minutos ele se pega balançando as pernas... Mentalmente ele volta até o grande pátio, onde o encontra ainda menino, sentadinho ao lado de sua merendeira avermelhada e o vê ainda na infância balançando as pernas... É... Velhos hábitos não mudam nunca! Mais uma vez ele sorri, balança a cabeça como se este movimento o fizesse desprender-se dos pensamentos. Esfrega os olhos com as mãos e joga a cabeça pra trás, tentando sentir de uma forma muito intensa este momento. Levanta e retorna à cozinha. No caminho ele pensa que a vida segue em frente e quando a saudade aperta faz um bem danado voltar ao passado, mesmo que seja numa noite fria qualquer que antecede o inverno. Ele suspira e fecha os olhos e mais uma vez mergulha no mar de sensação. Ao abrir os olhos, todas as idéias são deixadas de lado e começa então um novo ciclo de vivências...

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